Não
lembrava de quando tinha sido sua última grande mudança. Os últimos meses
tinham sido atordoados, com muita tensão e pouco movimento. A vida era sempre a
mesma, sempre jogada dentro de uma rotina chata, sem novidades, sem alegrias.
Aquele era, especialmente, um dia ruim. Suas pernas latejavam por causa dos
exercícios de mais cedo, sua cabeça doía um pouco pela quantidade de números
que havia estudado e sua mente era levada pra muito, muito longe dali. Levada
por velhas lembranças, compostas de momentos maravilhosos. Mas ainda eram
velhos.
Não
lembrava de quando tinha deixado tudo aquilo para trás. Não lembrava de quando
tudo tinha dado errado. A melancolia parecia rondar seus pensamentos, e ele não
podia deixar de se impressionar um pouco com a vivacidade em que estes estavam.
De repente bateu-lhe um aperto no peito. Não sabia se era dor. Não deveria
poder ser dor. Não eram más lembranças.
Sua
cabeça pesou um pouco mais sobre seu corpo doído. Um gostinho de angústia – oh,
sim, esse ele sabia identificar – plantou-se sobre ele e seu coração ficou
diferente. Mais mole, mais carente. Tão doído quanto o corpo, tão cansado
quanto a mente. Daí ficou fácil de descobrir. Sentia saudade.
Sentia
saudade daquela época pelo quão bem o fizera. Por ela ter sido a responsável
por absolutamente todos os seus grandes erros, porém consecutivamente por
também ter sido a responsável sobre a construção de seu caráter. Sentia falta
daquela animação, de quando cada dia era um novo dia e todo amanhecer parecia
trazer uma nova energia, uma nova esperança, um novo algo para ele ter com o
quê ficar determinado.
Sentia
falta dela – da pele macia, das vinte e duas pintas em cada braço, do
ruborzinho em seu rosto maravilhosamente esculpido que subia toda a vez que ele
a abraçava. Sentia falta da garota que o renovara, do ser humano maravilhoso
que o fez enxergar a vida de outra maneira. Sentia falta de ser irresponsável,
de fazer o que desse na telha, de passar as vinte e quatro horas arranjando um novo
motivo para se divertir.
Queria
ter alguém pra cuidar de novo. Alguém que pudesse amar como a si mesmo e que o
amasse tanto quanto. Alguém que o presenteasse com fotos suas que nem sabia que
existiam. Alguém para proteger como uma raríssima jóia e para dar-lhe conselhos
como o único e maior porto seguro que era. Alguém pra abraçar no frio, pra
compartilhar com ele suas manias mais estranhas e olhá-lo com censura quando
bebesse demais.
Um
cachorro latiu em algum lugar, despertando-o do frenesi da nostalgia. Esfregou
os olhos. Eram dez pras duas. Precisava trabalhar.
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