Não se sentia
confortável ali, queria mudar de ambiente, de posição, seja lá o que fosse,
qualquer coisa que pudesse melhorar seu estado de espírito era válida. Mas no
fundo ela sabia que de nada adiantaria tomar todas essas medidas uma vez que nenhum
lugar a faria se sentir confortável enquanto precisasse lidar com a terrível
enxaqueca que a atormentava desde quinta passada e a aparência tragicamente
desgastada pela boa noite de sono que não tinha há semanas e as lágrimas que só
agora haviam resolvido cansar-se de aparecer-lhe aos olhos.
Ninguém a
havia procurado. Em todo aquele tempo, não recebera um telefonema ou sequer uma
mensagem de texto de um único ser vivo. Começou a lembrar-se, rosto por rosto,
de quem supostamente não deveria tê-la abandonado. Não eram muitas pessoas, mas
era o bastante para que seu coração doesse a cada “Eu vou estar lá por você”
recordado.
Nunca soubera
muito bem lidar com a solidão. Estava longe de ser sociável e simpática, mas a
solidão era algo que sempre procurara afastar de si o máximo possível. Se fazia
besteiras quando estava acompanhada, imagine como seria quando estivesse só!
Não era preciso muito esforço para se notar isso: A casa fedia a vômito,
cigarros e comida estragada e meia dúzia de garrafas de cerveja vazias estavam
espalhadas pela cozinha.
Era a figura
certa pra representar o abandono, o medo e a insegurança. Era aquela que só
sabia lidar de um jeito quando as coisas ficavam apertadas; fugindo, não
importasse a quem precisasse magoar para isso. Sabia que era egoísmo. E fingia
não ligar para os sentimentos dos outros, mas no fundo se odiava por isso, e
nunca havia se perdoado por nenhum coração partido a qual havia sido
responsável. Seu coração era um poço de mágoa e rancor de si mesma, exalando
culpa por todos os poros. Foi consumida pelo ódio e pelo desgosto de tal forma
que olhar para o que havia se tornado lhe provocava arrepios. Queria arrancar
aquela pele cheia de cicatrizes e reconstruir cada pedacinho de sua mente, cada
pontinho danificado pelos erros e pelo ódio. Queria o caminho mais próximo para
se salvar daquela vida miserável, jogada aos quatro ventos, a qual desistira há
sabe-se lá quanto tempo.
Por fim, o
café ficou tão gelado que não pôde mais beber. Recorreu aos cigarros outra vez.
Era o último da carteira. Uma única e falha faísca se acendeu da ponta do
isqueiro ao pressioná-lo. Era o seu último sinal. Os portarretratos de seu
quarto, um por um, despedaçaram-se à medida que ela os jogava contra a parede e
rasgava suas fotos ao meio. Sentia-se mais livre a cada taça reduzida a pó e a
cada documento estilhaçado. Foi a primeira vez que sorriu em tempos. Cortou os
cabelos o mais curto que conseguiu daquele ângulo no espelho e jogou aquele
celular de merda no lixo, junto com tudo o que não iria mais precisar.
Seu cigarro
reduzira-se a cinzas. Caminhou até a varanda, sorrindo como se tudo estivesse
perfeito e a vida nunca tivesse sido tão favorável. Soprou as cinzas. Elas
caminharam em harmonia com o vento, num canto belo e silencioso, até espalharem-se
como se nunca antes tivessem partilhado do mesmo papel. Era a sua deixa, sua
chance de dançar conforme a música.
Fechou os
olhos, e deu um passo a frente à janela. Finalmente, finalmente seria livre,
finalmente encontraria a salvação pela qual esperou a vida inteira! Enfim,
descansaria. Sorriu uma última vez, e despediu-se mentalmente das coisas que um
dia considerou valiosas, embora hoje tivessem perdido o encanto. Sentou-se no
parapeito da janela. Não quis abrir os olhos: Tinha medo de retroceder. Não
queria retroceder. Queria ir até o fim. Queria saber o verdadeiro valor da
felicidade.
Abriu os
braços, e sentiu todo o peso retirar-se das suas costas, naquele último minuto.
Um bilhão de sentimentos a invadia. Ironicamente, era como se estivesse viva de
novo. Nem por um minuto quis voltar atrás: Aquele era o sentimento que
procurara a vida inteira, aquilo era sentir aprovação por uma atitude de si
mesmo; aquilo era o reconhecimento de saber que fazia a coisa certa.
E foi com esse
último pensamento que abandonou a vida. Um sorriso quase imperceptível nos
lábios, lágrimas nos olhos e uma mente tão limpa quanto a vida daqueles que
estavam por prosseguir.
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