quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O último cigarro.

Ventava forte. A brisa gelada percorria minuciosamente o caminho compreendido entre a varanda e a sala de estar. O assobio meio tenebroso meio agradável produzido pelo vento mesclava-se com o ambiente quieto, escuro e melancólico. Era uma melancolia sinistra, diria. Não havia lágrimas ou músicas doloridas ao fundo, era só ela e seu rosto pálido e gelado deliberante sobre o porquê de o telefone ainda não ter tocado, levando a xícara de café há muito frio aos lábios todas as vezes em que precisava ignorar a resposta.
Não se sentia confortável ali, queria mudar de ambiente, de posição, seja lá o que fosse, qualquer coisa que pudesse melhorar seu estado de espírito era válida. Mas no fundo ela sabia que de nada adiantaria tomar todas essas medidas uma vez que nenhum lugar a faria se sentir confortável enquanto precisasse lidar com a terrível enxaqueca que a atormentava desde quinta passada e a aparência tragicamente desgastada pela boa noite de sono que não tinha há semanas e as lágrimas que só agora haviam resolvido cansar-se de aparecer-lhe aos olhos.
Ninguém a havia procurado. Em todo aquele tempo, não recebera um telefonema ou sequer uma mensagem de texto de um único ser vivo. Começou a lembrar-se, rosto por rosto, de quem supostamente não deveria tê-la abandonado. Não eram muitas pessoas, mas era o bastante para que seu coração doesse a cada “Eu vou estar lá por você” recordado.
Nunca soubera muito bem lidar com a solidão. Estava longe de ser sociável e simpática, mas a solidão era algo que sempre procurara afastar de si o máximo possível. Se fazia besteiras quando estava acompanhada, imagine como seria quando estivesse só! Não era preciso muito esforço para se notar isso: A casa fedia a vômito, cigarros e comida estragada e meia dúzia de garrafas de cerveja vazias estavam espalhadas pela cozinha.
Era a figura certa pra representar o abandono, o medo e a insegurança. Era aquela que só sabia lidar de um jeito quando as coisas ficavam apertadas; fugindo, não importasse a quem precisasse magoar para isso. Sabia que era egoísmo. E fingia não ligar para os sentimentos dos outros, mas no fundo se odiava por isso, e nunca havia se perdoado por nenhum coração partido a qual havia sido responsável. Seu coração era um poço de mágoa e rancor de si mesma, exalando culpa por todos os poros. Foi consumida pelo ódio e pelo desgosto de tal forma que olhar para o que havia se tornado lhe provocava arrepios. Queria arrancar aquela pele cheia de cicatrizes e reconstruir cada pedacinho de sua mente, cada pontinho danificado pelos erros e pelo ódio. Queria o caminho mais próximo para se salvar daquela vida miserável, jogada aos quatro ventos, a qual desistira há sabe-se lá quanto tempo.
Por fim, o café ficou tão gelado que não pôde mais beber. Recorreu aos cigarros outra vez. Era o último da carteira. Uma única e falha faísca se acendeu da ponta do isqueiro ao pressioná-lo. Era o seu último sinal. Os portarretratos de seu quarto, um por um, despedaçaram-se à medida que ela os jogava contra a parede e rasgava suas fotos ao meio. Sentia-se mais livre a cada taça reduzida a pó e a cada documento estilhaçado. Foi a primeira vez que sorriu em tempos. Cortou os cabelos o mais curto que conseguiu daquele ângulo no espelho e jogou aquele celular de merda no lixo, junto com tudo o que não iria mais precisar.
Seu cigarro reduzira-se a cinzas. Caminhou até a varanda, sorrindo como se tudo estivesse perfeito e a vida nunca tivesse sido tão favorável. Soprou as cinzas. Elas caminharam em harmonia com o vento, num canto belo e silencioso, até espalharem-se como se nunca antes tivessem partilhado do mesmo papel. Era a sua deixa, sua chance de dançar conforme a música.
Fechou os olhos, e deu um passo a frente à janela. Finalmente, finalmente seria livre, finalmente encontraria a salvação pela qual esperou a vida inteira! Enfim, descansaria. Sorriu uma última vez, e despediu-se mentalmente das coisas que um dia considerou valiosas, embora hoje tivessem perdido o encanto. Sentou-se no parapeito da janela. Não quis abrir os olhos: Tinha medo de retroceder. Não queria retroceder. Queria ir até o fim. Queria saber o verdadeiro valor da felicidade.
Abriu os braços, e sentiu todo o peso retirar-se das suas costas, naquele último minuto. Um bilhão de sentimentos a invadia. Ironicamente, era como se estivesse viva de novo. Nem por um minuto quis voltar atrás: Aquele era o sentimento que procurara a vida inteira, aquilo era sentir aprovação por uma atitude de si mesmo; aquilo era o reconhecimento de saber que fazia a coisa certa.
E foi com esse último pensamento que abandonou a vida. Um sorriso quase imperceptível nos lábios, lágrimas nos olhos e uma mente tão limpa quanto a vida daqueles que estavam por prosseguir.

Old yellow bricks.

Não lembrava de quando tinha sido sua última grande mudança. Os últimos meses tinham sido atordoados, com muita tensão e pouco movimento. A vida era sempre a mesma, sempre jogada dentro de uma rotina chata, sem novidades, sem alegrias. Aquele era, especialmente, um dia ruim. Suas pernas latejavam por causa dos exercícios de mais cedo, sua cabeça doía um pouco pela quantidade de números que havia estudado e sua mente era levada pra muito, muito longe dali. Levada por velhas lembranças, compostas de momentos maravilhosos. Mas ainda eram velhos.
Não lembrava de quando tinha deixado tudo aquilo para trás. Não lembrava de quando tudo tinha dado errado. A melancolia parecia rondar seus pensamentos, e ele não podia deixar de se impressionar um pouco com a vivacidade em que estes estavam. De repente bateu-lhe um aperto no peito. Não sabia se era dor. Não deveria poder ser dor. Não eram más lembranças.
Sua cabeça pesou um pouco mais sobre seu corpo doído. Um gostinho de angústia – oh, sim, esse ele sabia identificar – plantou-se sobre ele e seu coração ficou diferente. Mais mole, mais carente. Tão doído quanto o corpo, tão cansado quanto a mente. Daí ficou fácil de descobrir. Sentia saudade.
Sentia saudade daquela época pelo quão bem o fizera. Por ela ter sido a responsável por absolutamente todos os seus grandes erros, porém consecutivamente por também ter sido a responsável sobre a construção de seu caráter. Sentia falta daquela animação, de quando cada dia era um novo dia e todo amanhecer parecia trazer uma nova energia, uma nova esperança, um novo algo para ele ter com o quê ficar determinado.
Sentia falta dela – da pele macia, das vinte e duas pintas em cada braço, do ruborzinho em seu rosto maravilhosamente esculpido que subia toda a vez que ele a abraçava. Sentia falta da garota que o renovara, do ser humano maravilhoso que o fez enxergar a vida de outra maneira. Sentia falta de ser irresponsável, de fazer o que desse na telha, de passar as vinte e quatro horas arranjando um novo motivo para se divertir.
Queria ter alguém pra cuidar de novo. Alguém que pudesse amar como a si mesmo e que o amasse tanto quanto. Alguém que o presenteasse com fotos suas que nem sabia que existiam. Alguém para proteger como uma raríssima jóia e para dar-lhe conselhos como o único e maior porto seguro que era. Alguém pra abraçar no frio, pra compartilhar com ele suas manias mais estranhas e olhá-lo com censura quando bebesse demais.
Um cachorro latiu em algum lugar, despertando-o do frenesi da nostalgia. Esfregou os olhos. Eram dez pras duas. Precisava trabalhar.